segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A velha história da pobre menina rica

Betim foi parar na mídia de uma maneira pouco convencional na semana passada. A jovem Tauanny Medeiros Cavalcante, de 18 anos, estudante de direito da PUC Minas em Betim, resolveu (e só a família para saber) fugir de casa. Ela alega problemas pessoais e se não fossem os desdobramentos deste episódio – uma releitura de “pobre menina rica” - o caso pode ter resultado em mais problemas. Tauanny foi achada trabalhando como caixa da na boate de prostituição Chaparral Night Club na Av. Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. Sua epopéia às avessas durou menos de uma semana, e não se fala em outra coisa na cidade.

Popularizada pela força imediata da internet, a façanha de Tauanny já figura como assunto de emails e “bate papos” pelo msn entre os moradores da Região Metropolitana de Belo Horizonte. É quase consenso na cidade: a menina exagerou. Supostamente ela teria dito algo à família. Ela voltou para casa, em segurança, mas deixa como “legado” a insatisfação das pessoas que se comoveram com a possibilidade da menina ter sido sequestrada. Graças a Deus, não foi!

Vou mais longe. O caso Tauanny/sumiço/boate dividiu a atenção não só de meus colegas jornalistas – que se empenharam em apurar mais sobre a notícia – mas também da Polícia. Ela não foi a única a sumir na mesma época. As buscas pela jovem, Natália de Almeida Paiva, 27 anos e mãe de dois filhos, pode ter sido afetada pela errônea conotação de desaparecimento que Tauanny trouxe à fuga espontânea.

Natália cursa o primeiro período de direito e foi vista pela última vez quando saiu de casa no dia 7 de outubro para ir à faculdade. O carro que Natália dirigia foi encontrado no dia seguinte, no Bairro Barreiro, próximo a sua casa, com sua mochila e documentos dentro e sem sinais de arrombamento, mas com arranhados que teriam sido feitos por galhos e a parte inferior danificada. Ela ainda não foi encontrada.

O que mais me assusta é como estamos, nós jornalistas, frágeis a estas notícias absurdas. A jovem Natália, que até então, está desaparecida, dividiu a atenção dos investigadores com o caso da também estudante da PUC Betim. E não é exagero dizer que isso pode ter afetado as suas buscas por Natália.

Que me perdoem pelo clichê. Mas fica a pergunta: Até que ponto devemos dedicar tamanha atenção a casos como o de Tauanny? Ou como avaliar se trata-se realmente um desaparecimento ou apenas da pirraça de uma menina mimada? Difícil, muito difícil descobrir.

A problema é justamente a parada

Há poucas semanas, um prefeito peitou o movimento gay. A cidade é Caxias, baixada fluminense. O tal prefeito, o tucano José Camilo Zito, pré-candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro. Um ano antes das eleições, o tal prefeito proibiu a realização da Parada Gay da cidade. O motivo alegado pelo prefeito é que a organização da parada não enviou oficialmente o pedido para realizar o evento. De fato, ficou a impressão de preconceito do tucano para com os gays caxienses.

A realidade não é tão simples como parece. Os argumentos de Zito são plausíveis. Em entrevista à revista Época, o prefeito alega que deveria existir um DIA NACIONAL DA PARADA GAY – ou algo similar. Neste dia, Zito sugere que os gays façam trabalhos voluntários, ajudem á sociedade e demonstrem que não se trata só “eles não são só aquilo de se beijar, de se agarrar”.

O que Zito talvez não saiba é que há anos a ideologia gay deu espaço para a “pegação gay”. As discussões políticas ficam destinadas apenas aos poucos organizadores do evento. O público, em si, pouco se importa se há ou não uma lei que proteja os menos afortunados e escolarizados homossexuais brasileiros. Zito alega ainda, em sua entrevista, que “nas festas passadas [em sua cidade], houve sexo em frente às residências, demonstração de desrespeito às famílias, beijos eróticos...”. Senhor prefeito, isso não é diferente nas demais cidades brasileiras que resolveram abrir espaço em suas vias públicas para o carnaval fora de época pintado pelas cores dos arco-íris (Símbolo do movimento gay, representado pelas cores diversas, a diversidade sexual).

Ele tem razão.
Não há muito que se discutir e os gays que costumam seguir o roteiro das grandes paradas sabem exatamente qual música está na moda, qual tipo de roupa é mais fashion e qual droga está mais em alta – sim, há um número alto de freqüentadores que faz uso de drogas nestas festas, aumentando os índices de baixarias. Mas faça um senso para descobrir quantos sabem falar sobre as leis que estão em discussão para garantir que os direitos dos homossexuais sejam reconhecidos? Arrisco em dizer que poucos. Bem poucos.
A festa vale a pena e é importante. Afinal de contas todos podem se divertir e beijar na boca. Mas é uma pena que tenham sido feitas manifestações contrárias ao prefeito de Caxias. A decisão dele é salutar e as ponderações que fez, bastante críveis. Fica aqui a reflexão sobre se é (ou não) importante a realização de tantas paradas gays pelo país, com tão poucos manifestantes do movimento realmente envolvidos com a causa gay, bem mais importante que beijar na boca no final de semana.

De volta à luta


Nossa...
Quanto tempo sem escrever algo. A guinada profissional que dei no início deste ano fizeram com que fizesse essa parada. Parece que fechei mesmo as portas e só quis escrever para e pela Prefeitura de Betim. Ao passar para o lado da “assessoria de imprensa”, pela primeira vez me senti desafiado a mostrar [mesmo] do que sou capaz. Não costumo assumir desafios, mas desta vez, aceitei. Meses sem escrever e agora me veio à mente uma vontade louca de falar sobre: jornalismo!

Gilmar Mendes que me perdoe (e se não me perdoar, dane-se), mas o ofício do jornalismo precisa passar pelas cadeiras acadêmicas. Ele deveria se preocupar com a qualidade com que as faculdades estão mantendo seus cursos – a que cursei... aff!
Mas esta batalha foi vencida, por ele. (Embora a guerra ainda não tenha sido encerrada). Penso muito na qualidade dos nossos jornalistas. Aliás, desconheço uma profissão, uma categoria, em que haja tamanha desunião.

Há muitos que pensam realmente que a profissão é TV. Outros, falam mal demais por não terem deslanchado na carreira. Conheço poucos que realmente investem na área, estudam, colocam a cabeça no lugar para adquirir mais conhecimento e repassar tudo por meio de seus textos e coberturas.

Não sou um exemplo. Mas eu amo o que eu faço. Sou sincero em dizer que ganho menos do que acho que mereço. Mas não será isso que fará de mim um jornalista medíocre, coadjuvante.

Não se iludam. Muito tem sido feito para melar a profissão que escolhi para mim quando tinha 14 anos. Há muita gente defendendo muitos interesses que visam acabar com a CREDIBILIDADE do jornalismo, não com ele em si. Ora , meses antes da decisão infeliz do nosso ministro do STF, o próprio protagonizou a patética cena de um “piti” público com o também ministro, Joaquim Barbosa – este sim, por muitas vezes, um homem sensato. Como não associar uma coisa a outra? Pouco provável.

Os grandes donos de aglomerados de mídia podem ganhar – e muito – com isso. Até porque os benefícios garantidos pelas negociações entre os sindicatos da categoria – o da minha região anda bem caladinho, para te ser muito sincero – com as empresas, estão minando consideravelmente. A cada “negociação”, mais ganhos descem pelos ralos das salas, sabe-se lá onde, acontecem tais negociações. Não acho, repito, não acho, que haja motivos obscuros para que percamos tantos benefícios. Mas que há uma imensa inércia, uma total falta de comprometimento com as reais funções de um sindicato... enfim!

Finalizo este post reclamando da postura com que meus colegas – não todos – abocanham a profissão. Tenho colegas que se renderam ao “lado negro da força” e se vendem – por um preço camarada – para falar e fazer aquilo que é pedido a eles. Mas nesta selva de incrédulos e inertes, um afago nos corações daqueles que lutam por dias melhores, por melhores condições de trabalho e mais vontade de nossos colegas. Ainda consigo visualizar um planeta repleto de gente feliz, de coisas boas e de um jornalismo com as cores de nossa sociedade.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Quando cortam nossas pernas

Todos os dias saio de meu trabalho e sigo em direção à minha casa. Trabalho na Prefeitura de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Sou jornalista, e atuo como assessor de imprensa. Diariamente lido com o direito do cidadão em ter garantidas questões básicas como saúde, lazer e educação.

Hoje, na noite do dia 1º de junho de 2009, fui assaltado pela sexta vez. Em toda a minha vida, fui assaltado seis vezes. Destas, em apenas uma não me levaram o celular. Hoje, mais uma vez, me levaram um aparelho celular. Que foi comprado em substituição a outro que me furtaram em uma boate.

É deprimente que não possamos mais andar nas ruas de nossas cidades, que não possamos mais chegar tranquilos em nossas casas, sem ter medo de ser abordado por um bandido e ser assaltado.

A sensação, para alguém que ainda possa não ter sido roubado, é de total inércia.
Parece que nos levam as pernas. Parece que não podemos correr, que não podemos gritar, que não podemos reaver nossos bens, nossa liberdade.

Um país que deseja crescer, que deseja ser respeitado pelo mundo, que tem um clima favorável à agricultura, um cenário imenso de oportunidades para o turismo, não pode ser tão vulnerável ao crime, seja ele organizado, desorganizado ou esporádico.

Não é possível que pessoas como eu, como qualquer um, seja roubado seis vezes. A polícia por si só não resolve. Há de criar uma cultura de paz, uma cultura de denúncia, de indignação... Hoje, mais uma vez, sou vítima de um bandido despreparado – não menos perigoso – mas qualquer dia desses será você, seu filho ou filha, marido ou esposa, pai ou mãe, ou de qualquer um me lê agora.

Nosso povo precisa deixar de lado o aspecto carnavalesco e encarar a realidade com peito aberto, e mais, com ideia fixa de que a responsabilidade pela nossa segurança é do Estado, sim. Mas também é minha, é sua, é do seu vizinho, é de todos nós.

Vamos receber a Copa do Mundo em Belo Horizonte. Mas de que forma? Com bandidos de moto – ou qualquer outro meio de transporte – abordando os turistas ao chegarem nos hoteis? Vamos fazer de conta que não sabemos dos furtos nas feiras livres, nas praias, nos estacionamentos e afins? Vamos fingir que somos uma nação segura, com nossos jovens em risco social encaminhados?

Não vou fazer isso! Vou abrir minha boca e falar que desta forma estamos sujeitos a proporcionar ao mundo um dos PIORES espetáculos do planeta. Violência, insegurança e indignação... o tripé da sociedade covarde e que se cala diante aos problemas pulsantes de nossa era!

Estou muito revoltado. E por isso pergunto: Até quando vão cortar nossas pernas?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Que palavras?

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Que palavras são estas que não sei dizer?
Quantos somos nós?
Àqueles que entendem de tudo um pouco
Que saibam dizer o ideal no feroz momento!
São todos tolos, bobos, imbecis

São palavras estas que não sei dizer!
São sentimentos estes que me permito não escrever
São coisas que não sei o quê!

Porque todas as vezes tive certeza
Foram as mesmas vezes que nada soube entender
medo, receio, pavor
Por total falta de próprio amor
Foi por de fato, nem o meu mesmo querer

Aos lugares que nunca fui
Resta o sabor de nunca me ter visto
Porque até planta nesta terra, flui
Porque nada mais sou do que alma e pó, um misto!

__________________________________ Fim

"Do começo ao Fim" - O filme!

Chute na boca do estômago

Ao me deparar com o trailer do filme “Do Começo ao Fim”, de Aluísio Abranches (“Dois Copos de Cólera” e “Três Marias”), me senti assim... chutado! Não que o filme pareça ruim, muito pelo contrário. Mas que as cenas e as falas me deixaram sufocado. A história por si só já chama a atenção: dois “meio” irmãos, filhos da mesma mãe – a brilhante Julia Lemmertz – se apaixonam. Não há outra forma de dizer: dois irmãos que se apaixonam, e criam um laço de amor tão intenso, tão forte, que acaba virando amor, de dois homens.
Uma história homossexual já causa polêmica. Mas trata-se de um caso de incesto. E pelo o que vi no trailer de pouco mais de quatro minutos, acredito que muita gente vai se levantar e sair da sala de cinema. Aos papéis polêmicos coube a dois atores novos, desconhecidos, a interpretação destas cenas fortes – beijos e amassos – com uma sutileza enorme!
Coube aos novatos João Gabriel Vasconcelos e Rafael Cardoso – nesta ordem, encarnar papel do irmão mais velho e do caçula. Cardoso é pouco conhecido pela TV, já que interpretou o par romântico de Monique Alfradique (ex-Paquita) na novela “Beleza Pura”. João Gabriel é modelo.
Fábio Assunção é o pai do personagem de Cardoso. O segundo marido de Lemmertz. Ele também vai atrair sua parcela de polêmica. Será o seu primeiro trabalho após a fase “reabilitação” que se submeteu no final do ano passado. Mas já adianto, pelo trailer, ele faz um impecável papel coadjuvante.
No filme ainda há a fase criança dos dois irmãos os meninos Lucas Contrim e Gabriel Kaufman (de “Páginas da Vida”, o neto odiado pela personagem de Lilia Cabral).
Acredito que esta relação homoincestuosa não será bem recebida pelas entidades conservadoras brasileiras. A Igreja vai dar “o grito”! Vai haver um burburinho sem precedentes na história do cinema brasileiro? Não sei! Mas vale a pena puxar a cadeira e acompanhar. O movimento gay já deve esperar por “pedradas”.
Mas verdade seja dita: revolucionário esse Abranches!
O G1 o procurou para ouvir dele uma explicação sobre o filme. Ele não retornou ao site do grupo Globo. Mas em um vídeo que mostra os bastidores das filmagens, disponível na internet, o cineasta fala sobre o roteiro dizendo que se trata da história de dois rapazes que vivem uma história de amor não só fraternal, mas amorosa, se tornando um casal. “É um filme libertário. Acho importante começar a falar desse assunto, estamos na segunda década do século 20. E o filme é muito bonito, as pessoas são bonitas, generosas, boas, abertas e libertárias. E ao mesmo tempo, sem levantar nenhuma bandeira. Estou só contando uma história, obviamente tocando em assuntos que são tabus”, contou o diretor.
A frase que mais me tocou, pelo menos assistindo apenas ao trailer foi: “Para entender o nosso amor ia ser preciso virar o mundo de cabeça para baixo” – dita por um dos irmãos. A sensação que me deu é que vem muito tema para os cadernos de cultura e comportamento... é só esperar! Segundo o site G1, o filme entra em cartaz em agosto deste ano. Mal posso esperar...